sexta-feira, 30 de maio de 2008

Narcisismo digital

Juventude de Nova Iguaçu usa celulares e máquinas digitais para guardar os bons momentos.

Por: Marcelle da Fonseca Lima
Imagens: cedidas pelos entrevistados.

Os celulares usados que o pai de Carolina Fernandes revende sempre despertaram a cobiça da estudante, mas ela só conseguiu realizar o seu sonho de consumo no dia em que ousou pegar um aparelho escondido. “Estou com ele até hoje”, revela com um ar maroto. O pai jamais desconfiou.

O também estudante Giovane Alves dos Santos não cometeu nenhum deslize ético, mas não foi menos trabalhosa a conquista do aparelho que com freqüência usa para fotografar a si mesmo e exibir sua beleza no Orkut para as pessoas que não o conhecem. “Consegui o meu celular com muito suor, juntando o dinheiro que recebia do programa Juventude Cidadã que fiz em 2007”, conta o estudante.

A estudante Natália Stefani Bastos Marques também usa o celular para experiências narcisistas, como a de um dia em que estava sem nada para fazer e resolveu tirar fotos de si mesma. Uma dessas fotos, atualmente exibida no seu Orkut, deixou-a parecida com uma modelo. “Adorei aquela foto”, conta. Mas Natália não usa o aparelho apenas como um espelho. Ela também gosta de registrar os passeios que dá com os pais.

Também vão parar no Orkut as fotos tiradas pela também estudante Jéssica de Jesus Guimarães, mas as produz com a câmera digital que com freqüência traz em sua bolsa. “Uso a minha câmera para recordar momentos felizes, como passeios, festas, etc.”, conta. O registro mais recente foi feito em um passeio ao Parque Municipal de Nova Iguaçu, ao qual chegou depois de uma caminhada de quatro horas.

Uma das fotos de que mais gosta é a de um conjunto de árvores próximas a um paredão “esculpido pela mãe natureza”, que a deixaram encantada. “Toda vez que olho para aquela foto lembro o esforço que fiz para chegar até ali”, diz Jéssica. Também há histórias de obstinação por trás das fotos tiradas por Gracilene Ferreira Mattos, que tem como grande musa o cachorro Pretinho, da raça Pichi 2.

“Eu sempre quis ter um cachorro”, conta Gracilene, cujo sonho de consumo esbarrava na intransigência do pai. Ela tentou driblar a vigilância dele, levando para casa um dos filhotes da ninhada da cadela de uma amiga. “O cachorro passava os dias na rua e, quando meu pai ia dormir, eu o colocava para dentro de casa.” Esse malabarismo quase acabou no dia em que o pai associou os latidos noturnos ao cheiro de fezes e urina que sentia quando acordava.

A depressão em que Gracilene mergulhou ao ter que devolver o cachorro para a amiga terminou sensibilizando os pais, que semanas depois o devolveram na festa de seu aniversário. As fotos de Marcello Palhares Esteves não escondem histórias tão dramáticas, mas ele as contempla quando entra em crise. “Só fotografo quando a foto sai do cotidiano ou seja muito bonita”, afirma. Depois de um tempo, ele as observa à procura de um sentido para a vida. “Mesmo que chova, o sol não deixa de aparecer”, filosofa. Saber que terá dias iluminados ensina-o a não desistir em meio a um problema.

Ao contrário de Marcello, Luana Faria Jardim registra tudo com o celular. Mas a foto de que ela mais gosta lhe traz de volta um natal que passou na casa dos tios, em São Paulo. “Fotografei os telhados das casas, todos organizados e iluminados”, conta Luana. Esta foto lhe traz uma saudade tão gostosa como a que invade o coração de Felipe dos Santos Silva, que lembra os pequenos e grandes eventos do dia-a-dia nas freqüentes visitas feitas ao álbum de fotos do Orkut. Um dia que Felipe gosta de saber “como foi divertido” foi o aniversário de um amigo na pizzaria Parmê do Top Shopping. “Tirei muitas fotos naquele dia”, diz. “Quando olho para elas, eu lembro de tudo que aconteceu como se fosse hoje.”

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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Um mundo onde tudo é possível

Freqüentadores de lan house são mais unidos no mundo virtual do que na vida real.

Texto e fotos de Daniel Santos

As lan houses são estabelecimentos comerciais onde os usuários pagam para usar computadores conectados a internet e para jogos on-line. O nome já mostra como esse lugar funciona . LAN é a sigla Local Area Network, que pode ser traduzida como rede local. E house significa casa. Ou seja , uma lan house é uma rede de computadores dentro de um pequeno espaço.

Essas casas que começaram e se difundiram na Coréia, em 1996. Chegaram por aqui em 1998. A grande onda das lans começou a se formar no início desta década, quando os empresários perceberam as filas que se formavam nas poucas casas existentes.

Hoje, em todas as cidades e cantos você encontra diversas lan houses. Como Nova Iguaçu não poderia ficar de fora, a cidade, além de estar recheada dessas casas, novos empreendedores do município entram nesse ramo a cada dia que passa.

"Comecei vendendo produtos de informática. Como não deu certo, aproveitei as peças que já tinha e montei a Activi", afirma Thiago Machado, mais conhecido como Skull. Ele, que já tinha experiência em trabalhar em lan house, mantém uma clientela diversifica investindo em jogos e fazendo upgrade regularmente em suas máquinas.

Com o aumento dessas casas, o que a cada minuto se multiplica é o numero de freqüentadores. Crianças, jovens e adultos vão às lan houses para fazer diversos tipos de tarefas, que vão de jogos on-line a trabalhos profissionais.

O cabeleireiro Edson Henriques, o Edinho, passa cerca de cinco horas diante de um computador. "Vou na Lan House porque gosto de entrar em salas de bate papo", diz ele, que deixa de sair para outros lugares para participar de chats, onde já arrumou algumas namoradas. "Também pequiso preços e lançamentos."

Outro freqüentador que não abre mão do espaço é o estudante Paulo Marcos, o Betinho. "Gosto da lan porque me divirto nos jogos fazendo tudo o que eu não faço na vida real", diz ele, que já chegou a passar 13 horas seguidas em uma lan. Eis algumas das atividades que ele só pode fazer no mundo virtual: matar, voar e comprar à vontade.

Também há freqüentadores que entram na lan house para fazer uso de todos os serviços disponíveis no estabelecimento. È o caso do misto de mecânico e estudante Gleydsom Martins. "Me divirto com jogos, faço pesquisas e adoro me relacionar com novas pessoas nas salas de bate-papo e MSN", diz Gleydsom.

Mas Gleydsom vai além do uso convencional das lans. "Já fiz apostas com amigos no qual disputávamos para ver quem conseguia ficar com mais garotas que nós conhecíamos pela internet", confessa ele, que ficou em segundo lugar nesse campeonato. O mesmo Gleydsom também conta que, dentro da Lan, a relação com as pessoas é mais intensa .

"Fora da Lan, normal, somos amigos. Aqui dentro, a união é maior."

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Todo poder aos professores!

O professor aposentado lembra os embates entre o SEPE e a ditadura militar.

Por Flávia Ferreira

imagens: Gabriela Gama (Bré)

Durante a ditadura militar, Nova Iguaçu teve uma importante participação social e educacional no estado. Naquela época, os professores do município tinham um núcleo no SEPE (Sindicato Estadual dos Professores Estaduais). Esse núcleo era coordenado por Salomão Baroud David, que também ministrava aulas no Instituto de Educação, atual Instituto de Educação Rangel Pestana. Segundo ele, foi durante o regime militar que surgiram as primeiras associações e sindicatos iguaçuanos.


No Sindicato Estadual dos Professores Estaduais, pais de alunos, alunos e os professores discutiam os seus direitos em assembléias que eram um verdadeiro pandemônio. "Nossas assembléias tinham, no mínimo, 4 mil pessoas", lembra o professor Salomão. Mas essa intensa participação não passou desapercebida pela repressão. "Em todas as assembléias havia gente nos vigiando." Apesar dos olheiros da ditadura, Salomão e os sindicalistas realizavam um amplo trabalho de de valorização do educador e lutavam por melhorias salariais.


Nesse tempo ocorreram inúmeras passeatas em todo o estado do Rio. As pessoas se reuniam na Rio Branco para reivindicar, além do salário, outras coisas que queriam para educação. Essas passeatas chegaram a reunir cerca de 10 mil pessoas.

Nesse tempo havia também, segundo Salomão, um movimento social muito grande caracterizado pelas greves. "Fizemos greves de até 40 e 60 dias". Durante essas greves, enormes assembléias eram realizadas, onde uma multidão do Rio se encontrava na sede do Sindicato, no Maracanãzinho. "Nossa atividade era conscientizar os professores e, graças a Deus, nós obtivemos certa liderança", diz Salomão David.


Além das greves, esse sindicado implantou as eleições de diretores no Instituto de Educação e exigiram a diminuição do número de alunos por sala."No início do ano, tínhamos de 50 a 60 alunos dentro de uma sala", lembra o professor. "Aí começamos a exigir que se cumprisse a lei de no máximo 35 a 40, que já é um bom número."


Mas mesmo com a aparente liberdade de eleger diretores e realizar assembléias, tudo sempre era vigiado. Tanto que Salomão e mais uns cinco ou seis amigos recebeu, em uma das assembléias, uma convocação para se apresentar no DOPS (Departamento de Ordem Politica e Social), em Nova Iguaçu. "Isso é um tipo de pressão e perseguição que faz parte do sistema reinante na época."


As eleições de diretores e a construção são conquistas da época da ditadura que não foram perdidas nas décadas seguintes. No entanto, a organização dos professores não foi suficiente para barrar as perdas salariais da categoria, que começaram a se agravar durante o regime militar. "De que adianta criar escolas se o profissional que cuida do aprendizado está defasado?", pergunta Salomão. "Como um professor pode dar aula em três escolas e levar dever para casa?"


O SEPE de Nova Iguaçu ainda existe, mas ganhou uma nova configuração. "Atualmente, o SEPE tem uma diretoria que publica um jornal, que me manda, mensalmente, artigos sobre educação". Não há mais aquele movimento social, no qual importava menos a filiação partidária do que o desejo de obter melhorias para a classe. "É um outro momento, uma outra história".

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Supinos, legs e qualidade de vida

Academia de ginástica a céu aberto leva emprego e saúde para Miguel Couto.

Por William Faria da Costa


Em mais uma tentativa de melhorar a qualidade de vida dos moradores de Nova Iguaçu, a Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu inaugurou uma academia de ginástica a céu aberto em Miguel Couto no dia 9 de fevereiro de 2007. As aulas são inteiramente grátis e podem ser freqüentadas por toda a comunidade do bairro.

Com pouco mais de um ano de existência, a academia já virou um ponto de referência no bairro de Miguel Couto e na cidade de Nova Iguaçu, com cerca de 3.000 inscritos e 1.500 alunos assíduos. Além de ser um espaço para a saúde e para o lazer, a academia proporciona 16 empregos para moradores da região: quatro professores de educação física, quatro estagiários, dois auxiliares administrativos, dois auxiliares de serviços gerais, um professor de capoeira e três vigias.


Entre as atividades oferecidas, tem ginástica localizada, aeróbica e alongamento para adultos e jovens a partir dos 15 anos. Porém, os menores de 18 anos só podem freqüentar o espaço se, além de apresentar o atestado médico e as duas fotos ¾ exigidos dos demais alunos no ato da matrícula, entregarem a autorização assinada pelo responsável. O público da academia é mais abragente. Além dos jovens e adultos, crianças a partir de sete anos podem participar.


A academia funciona de segunda a sexta-feira em dois horários: das 6h às 10h40h e das 16h às 20h40. Aos sábados, só tem aula na parte da manhã, das 7h às 11h. A academia não funciona entre as 10h40 e as 16h por causa da exposição ao sol, não aconselhada pelos médicos.

Os freqüentadores do horário da manhã na sua maioria são mulheres e idosos. Já a partir das 16h, a academia é tomada de jovens do sexo masculino. Os alunos e funcionários que entrevistei se mostraram muito satisfeitos com o projeto. Alguns ressaltaram a importância da prática de exercícios físicos em uma área carente, onde em geral o cuidado com o corpo é visto como supérfluo.


A academia a céu aberto de Miguel Couto foi a segunda a ser inaugurada de uma série de três - as outras duas ficam em Jardim Tropical, inaugurada em 14 de agosto de 2006, e na Via Light, próxima ao Hipermercado Extra, inaugurada em 1º de maio de 2008.

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O bê-a-bá do Edital

Pontinhos de Cultura: Caravana vai às escolas para facilitar a construção dos projetos.

Por Flávia Ferreira
Foto: Louise Teixeira

Em uma matéria que publiquei recentemente, falei do lançamento do edital do Pontinho de Cultura/Escola Viva - Bairro-Escola. Como o prazo de entrega dos projetos termina no dia 16 de junho, a Secretaria Municipal de Cultura (SEMCTUR) criou três equipes para mobilizar e estimular a comunidade a propor projetos culturais que contemplem os alunos do segundo seguimento das escolas municipais de Nova Iguaçu - sexta à nona séries.

Cada equipe vai, em caravana, nas 31 escolas municipais de Nova Iguaçu que serão atendidas pelo pontinho de Cultura. Como ajuda é sempre bem-vinda, a Secretaria de Cultura acionou a Secretaria de Juventude (SEMJUV), a Secretaria de Educação (SEMED) e a Secretaria de Participação Popular (SEMPP).

Essas caravanas vão às escolas conscientizar os pais, professores, grêmios estudantis, enfim, todo o corpo escolar. Os artistas locais também são importantíssimos para sugerir os rumos da cultura na cidade. "Nesses encontros falamos um pouco do edital, damos o endereço do site onde ele pode ser encontrado e, é claro, convidamos a comunidade para participar", diz Sandra Mônica, responsável pelo edital na Secretaria de Cultura.

Sandra Mônica está muito animada com o processo. "As pessoas nos procuram para tirar mais dúvidas, inclusive os jovens, que nos chamam para mostrar o que sabem fazer ou até falar de conhecidos que podem ingressar no projeto."

O pontinho é extremamente democrático, pois qualquer projeto pode participar, desde os tecnológicos, como operar câmera filmadora, por exemplo, até os artísticos, como ensinar teatro e dança. A idéia é elevar o potencial de cada lugar e aumentar o gosto pela produção cultural de Nova Iguaçu.

As caravanas já estão na rua para convocar a comunidade para participar do edital. A equipe de Sandra, constituída por ela e André Luís Fernandes (SEMJUV), já passou por Califórnia, Jardim tropical, Nova América, e ainda vai rodar por Cobrex, Cerâmica, Prados Verdes, Jardim Europa e Carmari. As outras duas equipes vão cobrir os outros bairros.

Jovens se interessam pelo Pontinho de Cultura

A caravana tem sido uma experiência gratificante para Sandra Mônica, pois as pessoas falam de seus sonhos. "Tem sido muito animador, pois as pessoas nos procuram para tirar mais dúvidas, inclusive os jovens, que nos chamam para mostrar o que sabem fazer ou até falar de conhecidos que podem ingressar no projeto", diz a secretária adjunta de Cultura. Segundo ela, o pontinho faz parte de uma luta das pessoas envolvidas com cultura para atrair mais investimentos públicos em uma atividade que fazem com amor. "Esse edital traz a oportunidade de investimento nesse amor."

As equipes escolares e os adolescentes também estão se mobilizando a favor desse movimento. "Sempre pedimos para que mobilizassem a comunidade, porque eles, mais do que ninguém, sabem quem são os envolvidos com a cultura local".

A primeira oficina do pontinho reuniu cerca de 40 pessoas. Nela, as pessoas puderam tirar dúvidas, interagir uma com as outras e até firmar parcerias para construir seus projetos. "Não precisa ser um projeto individual. A idéia é que as pessoas do bairro se conectem e possam trabalhar juntas." Sandra diz que unir diferentes forças de trabalho pode ser um meio de melhorar o projeto e torná-lo mais atraente para os meninos. "Porque para o pontinho os jovens têm que desejar e aderir às oficinas", diz Sandra.

Clique aqui e fique ligado nas oficinas de construção de projetos para o Pontinho de Cultura.

Em caso de dúvida, ligue para SEMCTUR. Tel.: 2667 - 1851 / 26667 – 6208. Fale com Sandra Mônica ou compareça na sede da secretaria, que fica na Av. Nilo Peçanha, 480, Centro de Nova Iguaçu.

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terça-feira, 27 de maio de 2008

A missão de Zezé Mota

Superintendente da Igualdade Racial do Rio de Janeiro discute movimento negro no Sylvio Monteiro.

Por Daniel Santos

O Espaço Cultural Sylvio Monteiro serviu de palco, na segunda-feira 19 de maio, para que representantes do movimento negro discutissem um assunto bastante polêmico no país e no mundo: igualdade racial. No centro de uma mesa composta por representantes do movimento negro de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e até da África, estava a Superintendente da Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro, a atriz Zezé Mota.

A reunião começou com a lembrança do ato promovido no dia 13 de maio, na Praça Rui Barbosa. Os organizadores do ato atribuíram o sucesso do ato à união do governo municipal com a sociedade civil. O ato, que durou cerca de oito horas, mobilizou artistas de toda a Baixada Fluminense.

Depois dos elogios ao ato do dia 13 de maio, os participantes da reunião com Zezé Mota começaram a discutir projetos do interesse da causa negra. “A questão racial caminha lentamente”, afirmou a superintendente estadual. Para ela, uma das muitas coisas a serem feitas pelos negros é lutar por uma equiparação salarial com os brancos. “Nós ganhamos muito menos”, disse ela, indignada.

Zezé Mota não esqueceu as conquistas do movimento negro, porém. Depois de elogiar a lei que trata o racismo como crime, ela analisou o mercado de trabalho para o ator negro. “Uma das principais evoluções é a inclusão de um maior número de negros em novelas e com papéis diversificados”, disse ela. Para a atriz, chegou a hora de reverter esse quadro no cinema. “Até agora o cinema brasileiro só usa o negro como bandido”, protestou.

A platéia fez diversas sugestões. Uma das pessoas presentes propôs um trabalho de valorização da cultura negra nas escolas. Também foi proposta a criação de um númeo maior de eventos que promovam a igualdade racial e digam não ao preconceito.

No fim da reunião, Zezé Mota elogiou a beleza do espaço cultural e revelou um dos seus desejos: “Sonho com a criação de um museu em memória do negro e do índio”, disse. Baseando-se no exemplo do ministro Gilberto Gil, a atriz Zezé Mota encerrou o evento mostrando seu talento e cantou “A missão”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro.

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Geografia da ditadura

Professora de geografia da Monteiro Lobato quase foi presa por causa de uma simples prova.


Por Flavia Ferreira
imagens: Gabriela Gama (Bré)

Sada Baroud David, uma senhora muito distinta que estuda no Instituto de Teologia Paulo VI e trabalha na formação bíblica da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, guarda tristes segredos da época da ditadura militar. "Nesta época, eu era professora de geografia da Escola Municipal Monteiro Lobato, onde a Vila Militar tinha uma presença constante", lembra.


Ela ainda traz na memória o clima de terror vivido na escola, onde os professores eram permanentemente monitorados por um certo coronel Zamith. "Lá pelos anos de 68 ou 70, ele sempre estava nas reuniões e, quando não ia, mandava olheiro." O ápice dessa ingerência, pelo menos para a professora, se deu quando ela foi prestar esclarecimentos na Vila Militar por causa de uma simples prova de geografia.


Sada David jamais esqueceu o susto que tomou quando, depois de ser convocada para uma reunião de emergência na escola, a diretora lhe informou que a prova havia sido mandada para os militares. "Tudo isso porque passei uma prova sobre a União Soviética usando informações que não estavam nos livros escolares", conta. O mais absurdo de tudo é que os dados em questão haviam sido colhidos de uma apostila fornecida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), um órgão do governo no qual estava fazendo um curso de especialização.


"Eu tremi nas bases", lembra. Sada David viu-se, além de desempregada e presa, sem poder ajudar o pai, doente em casa. Mas, apesar do medo, ela logo estava livre daquele pesadelo. "Tive que ir em casa pegar a apostila e encaminhar para a Vila Militar", conta. "Menina, quase fui presa por conta de uma prova", acrescenta, rindo.

Apesar do susto, a professora não recusou o convite de Dom Adriano Hipólito para secretariá-lo na recém-fundada Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Nova Iguaçu. Começava ali uma história de engajamento que daria um novo status ao movimento de resistência à ditadura militar tanto em Nova Iguaçu como no Brasil. "Todos os meses recebíamos a visita de bispos do peso de um Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga", lembra.


Aquela foi a melhor fornada de bispos da história, avalia Sada Baroud. "Nem em mil anos teremos bispos tão comprometidos com a pastoral social", afirma. Graças a eles, a Igreja teve uma influência decisiva nos movimentos populares. "Organizamos o povo e começamos a fazer todas as reivindicações que a gente achava que o país precisava", diz ela.

Com o apoio da Igreja, surgiram movimentos poderosos como o do MAB (Movimento de Associações de Bairro). "Dom Adriano apoiava tanto o movimento que chegou a oferecer os aposentos da Diocese para ser sede do MAB", lembra Sada. O movimento se expandiu de Nova Iguaçu para São João de Meriti, Duque de Caxias e Itaguaí, entre outros lugares. "Chegamos a construir uma Federação de Associação de Moradores do Rio de Janeiro (FAMERJ), e 50% dos representantes eram daqui."


A Diocese também ajudou o incipiente movimento pela terra, que deu origem ao primeiro sindicato rural da Baixada Fluminense. "Havia muitas terras ociosas na cidade, que logo se tornaram ocupações urbanas", conta. Essa evolução se deveu ao fato de Nova Iguaçu ser um grande centro de migração de nordestinos, que vêm para cá atrás das maravilhas do Rio de Janeiro.


"Nova Iguaçu teve a sorte de ter um bispo completamente destemido e comprometido com o povo, como Dom Adriano", afirma Sada. Segundo a professora, o líder religioso chegou a se expor à morte em nome de uma grande gratidão à cidade. "Eu vim para cá como frei, religioso, mas quem me converteu foi a Baixada, a querida e sofrida Baixada Fluminense", dizia Dom Adriano, segundo Sada.


Além do embate direto com os militares, os religiosos da Diocese de Nova Iguaçu ousaram esconder os perseguidos do regime. "A Igreja protegeu essas pessoas porque tinha plena consciência de que um regime ditatorial, totalitário, amedrontador, que torturava e matava pessoas, não tinha nada a ver com direitos humanos e não tinha nada a ver com a construção da cidadania no país", diz Sada.

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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Memórias do esquecimento

Padre Agostinho dá uma aula de democracia e esperança a nossos jovens repórteres.

Por Bruno Marinho
Imagens de celular

Entrevistamos o padre Agostinho Pretto, um homem que viveu e lutou contra a ditadura militar em Nova Iguaçu. Quem diria que por trás de um homem de 84 anos teríamos tantas histórias de um período tão triste do país? Foi uma tarde emocionante.

O religioso fez um esforço brutal para subir os três lances de escada que levam à Secretaria de Cultura e Turismo, na Avenida Nilo Peçanha. Ele chegou amparado pelo padre Geraldo Lima e apoiado em uma bengala. Mas abriu um largo sorriso tão logo entrou na sala.

- Olá, juventude – disse.

Ficamos encantados com a vitalidade que emanava dele, embora fosse igualmente visível o peso da idade. Assim que se acomodou, respirou fundo e abriu sua metralhadora giratória.

- Meu nome é Agostinho, sou gaúcho e cheguei ao Rio de Janeiro em 1963 – disse.

O padre não usou de meias-palavras para analisar os primórdios do movimento militar, que tomou o país de assalto na virada de março para abril de 1964.

- Em 1964, os militares deram o grito: "Silêncio, Brasil, aqui mandamos nós!" Em 1968, com a edição do AI-5, eles gritaram de novo: "Todos para dentro de suas casas, porque aqui mandamos nós!"

O padre, que participou da resistência principalmente na segunda fase da ditadura, terminou sendo preso. Conheceu então o silêncio da cela, os gritos dos torturadores e a morte dos torturados.

- Nada vai apagar essas desgraças – disse.

Apesar de todas as desgraças daquela época, Padre Agostinho não teve dificuldade para identificar o pior momento dos chamados anos de chumbo.

- É não poder ir e vir – disse o padre. – É você não poder se expressar.

Em nome da liberdade, a juventude daquela época chegou a dar a vida. Um dos casos mais emblemáticos dessa capacidade de sacrifício foi o estudante paraense Edson Luiz Lima Souto, assassinado no restaurante Calabouço no dia 28 de março de 1968.

- Ficamos uma noite inteira diante do corpo dele, levantando a mão e dizendo: "Edson, com a sua morte, ganharemos a liberdade."

A morte de Edson Luiz, como prometeram os militantes que velaram o seu corpo, foi o ponto de partida de um ano de muitas e ruidosas manifestações políticas pela volta da liberdade no Brasil. Mas o AI-5, em dezembro de 1968, abortou a festa democrática. Quem não morreu teve que silenciar ou fugir do país.

- Tiro o chapéu para os exilados porque ir para o exílio não é fugir, mas respirar para poder voltar com mais força.

É nesse momento que surge a figura de Dom Adriano Hypólito, que marcaria tanto a vida do Padre Agostinho como a do país.

- Ele abriu as portas a todo aquele que era perseguido ou estava marcado para morrer.

Vieram para Nova Iguaçu, refugiar-se sob o manto protetor da Diocese de Nova Iguaçu, médicos, professores, advogados, trabalhadores e religiosos, como o próprio Padre Agostinho.

- Fomos acolhidos nos centros comunitários, nas igrejas e nas casas do povão – conta o religioso.

É nesse momento da história de Nova Iguaçu que surgem as Comunidades Eclesiais de Base, Centro de Direitos Humanos da Baixada Fluminense e o Movimento das Associações de Bairro. Só para se ter uma idéia da capacidade de mobilização do movimento popular de Nova Iguaçu, 50% dos membros da Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro, a FAMERJ, eram da cidade.

– Eles são os verdadeiros heróis dessa época: o povão!

Com a redemocratização e principalmente a abertura do país para o mundo, o movimento popular nunca mais foi o mesmo.

- Com o choque da modernidade, nós nos acomodamos – lamenta.

O esvaziamento das lutas populares depois da redemocratização leva muitas pessoas a dizerem que prefere a época da ditadura. Padre Agostinho reage com indignação todas as vezes em que ouve esse tipo de estupidez.

- Rezem a Deus para que esse tempo não volte – protesta. – A ditadura foi um tempo terrível, que nossa gente não deve esquecer.

Apesar da tsunami de pessimismo em relação à capacidade de reação da população, Padre Agostinho não perde nem o otimismo nem a fé. Para ele, ainda estamos vivendo a ressaca de um longo tempo em que o povo brasileiro foi massacrado por uma elite voraz e corrupta.

- Todos esses danos que temos aí são decorrentes da ditadura – analisa.

Entre esses danos, o religioso enumera a corrupção e principalmente a descrença na política e nos políticos, hoje sinônimos de ladrões. Padre Agostinho não se esquece de contabilizar o que chama de ditadura do descaso.

- Imagine você ir hoje ao médico e ele te dizer volte no mês de agosto.

Mas as viagens que fez ao redor do mundo lhe deram um novo ânimo. Viu na África e na China que a juventude não apenas é igual em todos cantos do planeta, mas em todas as épocas.

- A juventude de hoje não é diferente da juventude de minha época - afirma. - Ela não está dando sopa, não.

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Lama lucrativa

Ponto de encontro de todas as tribos, Rua da Lama é a principal referência noturna de Nova Iguaçu.


Por Daniel Santos
Denominada assim por ser um lugar de fim de noite, a Rua da Lama é um dos principais points da Baixada. Na fronteira do Centro com o bairro Califórnia, o lugar oferece diversão para todas as tribos: churrascarias, pizzarias , bares, restaurantes, choperias, boates... A variedade de opções termina se refletindo nos seus freqüentadores, onde podemos encontrar de pais de família com a cabeça grisalha a jovens funkeiros.

Um velho freqüentador da Rua da Lama é o estudante Gleydson Martins, de 21 anos:
- Na Rua da Lama, você pode beber e se divertir à vontade – afirma ele.

Os comerciantes também ficam felizes com a agitação da Rua da Lama, principalmente nos fins de semana.

- Lucro com o meu bar porque aqui é a diversão da Baixada – conta Joana, moradora da rua e dona do bar Aquarius Petiscos.

Como os freqüentadores, há comércio para todos os gostos na rua. Além do mercado de trabalho para músicos da Baixada, a Rua da Lama criou oportunidade de negócios para proprietários de terreno, transformados em concorridos estacionamentos durante a noite. O point também movimenta a economia informal, atraindo camelôs e flanelinhas.

- Faço de R$ 100 reais por noite no fim de semana – contabiliza o estudante Sérgio Rodrigo.
Sérgio Rodrigo é consegue unir o útil ao agradável.
- Quando tenho tempo, também curto a noite - diz. – Aqui é muito bom pra conhecer novas pessoas.

Mas nem tudo são flores na Rua da Lama. Os freqüentes engarrafamentos e o som alto proveniente dos estabelecimentos que oferecem música ao vivo ou karaokê são alguns incômodos citados pelos moradores da Rua da Lama.
- Aqui é muito barulho – diz a moradora Miriam.

Apesar dos transtornos, Miriam não pensa em se mudar da Rua da Lama.
- Aqui ainda é um bom lugar pra morar – diz.

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Procon da política

Professor Ney Alberto foi personagem importante na luta contra o regime militar.

Por Flávia Ferreira
Imagens: Garbriela Gama (Bré)

O professor e historiador Ney Alberto é mais conhecido por causa do seu trabalho em defesa da memória da Baixada Fluminense. Mas, durante a ditadura militar, ele foi um grande ativista político. "Quando rebentou o golpe de 1964, eu era o presidente da UENI (União dos Estudantes de Nova Iguaçu) e, por conta do meu envolvimento com o movimento estudantil, fui preso várias vezes", conta o professor. Ele também mostrou sua indignação e revolta com o rumo político enfrentado pelo país em suas letras para a música popular. Suas composições chegaram a ser gravadas por intérpretes importantes, como Agepê e Bezerra da Silva.

A entrada de Ney na faculdade de história da Universidade Gama Filho só fez aumentar o desejo de mudança já demonstrado nas manifestações em que os estudantes secundaristas de Nova Iguaçu reivindicavam melhorias no ensino público, criticavam os aumentos das anuidades escolares e lutavam pela construção da Escola Municipal Monteiro Lobato. Um ano depois de passar no vestibular, ele já se tornara presidente do diretório acadêmico Graciliano Ramos. Foi na condição de líder da universidade de Piedade, Zona Norte do Rio de Janeiro, que participou dos tumultuados congressos e seminários estudantis. "Sempre tinha alguém da ditadura", lembra.

No entanto, o regime militar decretou o AI-5 (Ato Institucional 5) em dezembro de 1968 e nocateou a oposição durante longos 20 anos. As ruidosas passeatas estudantis foram reprimidas à bala e a censura, que já existia, foi arrochada. O direito de votar em representantes para o poder executivo foi suprimido nas grandes capitais, nos estados e, é claro, na união. "Evidentemente, a gente queria que, através do voto, fosse escolhido um presidente", diz Ney. Restou a ele e a seus companheiros de luta o silencioso protesto de pichar os muros com o bordão: 'Abaixo a Ditadura!'. “Naquela década, muitos opositores do sistema perderam seus empregos, foram presos e torturados, quando não executados.”

Restavam poucos espaços de expressão política. Um deles foi o da chamada música de protesto, que consolidou a obra de compositores como Chico Buarque de Hollanda e Ivan Lins, entre outros. O professor Ney Alberto entrou nessa barca e produziu pérolas como "Da Pesada", gravada anos depois por Bezerra da Silva. Transmitiu nesta letra toda sua indignação com o regime. "É da pesada suportar anos uma ditadura militar; é querer escolher seu presidente, e não ter o direito de votar”, escreveu o professor. Os censores não gostaram e a proibiram durante anos.

Por conta do delicado momento vivido por Nova Iguaçu, só era possível cantar músicas de protesto em grupos e em lugares isolados, afastados da “muvuca”. “Sempre tinha um dedo duro para escutar e alcagüetar”, lembra o compositor. A perseguição chegou a um ponto tal que o famoso Chico Buarque precisou mudar seu nome para Julinho de Adelaide para que a censura aprovasse algumas de suas composições.

Por causa do tom contestador das suas letras foi chamado ao Regimento Sampaio, em Deodoro. “Me aconselharam a não fazer músicas criticando o regime”, ironiza. Mas o intrépido professor não desistiu de usar sua arte para criticar a ditadura militar. “Tinha que participar de alguma forma”, desabafa. "Se você não consegue fazer nada por não ser do poder legislativo ou executivo, então dentro do seu meio ambiente você tem que dar o seu recadinho", diz ele rindo.

Um eterno insatisfeito, o professor afirma ainda que a ditadura não acabou. “Todos que foram interventores ou tiveram bons empregos na época voltaram candidatos e se elegeram no regime democrático", lamenta. O professor acredita que a democracia é um músculo, que precisa ser exercitado. "Nenhum time ganha o campeonato se não se exercitar, e nós estamos exercitando a democracia e o voto.” É por causa da falta de treinamento, de discussão e de debate, que muitos trocam seu voto por um prato de mocotó ou de angu à baiana.

O professor Ney Alberto vota de modo criterioso, analisando as propostas dos candidatos. Mas gostaria que existisse um PROCON para a política. "Eu voto por acreditar em uma promessa que será cumprida sei lá quando". Para ele, essa propaganda enganosa na política é uma forma de ditadura.

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Tribos digitais

Lans houses são o principal ponto de encontro dos jovens de Nova Iguaçu.

Por Carla de Souza Domingues, Lucília da Soledade Eleutério, Jeyce Cristine

Imagens: Daniel Santos

Se você quiser encontrar o pedreiro Anderson Alexandre dos Santos, basta ir à Lan do Julio, em Austin. “Só vou em casa almoçar”, revela esse habitante do mundo virtual, que não gasta menos de R$ 70 por semana caçando mulheres na internet. Não é muito diferente o dia-a-dia do estudante Jefferson Rodrigo Alexandre da Silva, que gasta R$ 50 por semana para passar cinco horas diárias zoando em sites de relacionamento como o Orkut e o MSN. Nenhum dos dois tem computador, mas jamais lhes ocorreu juntar dinheiro para realizar a utopia da inclusão digital sob o olhar protetor dos pais. “Não gosto de ficar em casa”, acrescenta Anderson.

O público das lan-houses não é feito só de fissurados, como nos dois casos apresentados acima. “Aqui vem todo tipo de gente aqui e com todos os objetivos”, conta Leonardo Vieira, que em abril de 2006 largou uma lanchonete para abrir a lan house Matrix Games. Mais espalhadas por Nova Iguaçu do que o mosquito da dengue, as lans podem atrair donas de casa interessadas em pagar contas, estudantes que precisam fazer pesquisa escolar e principalmente jovens reunidos em torno dos clãs – cerca de 15 grupos de cinco pessoas que disputam campeonatos de games eletrônicos nos quais os ganhadores podem levar até R$ 5 mil.

“Venho aqui para bater-papo no MSN e no Orkut”, conta a estudante Carolina Domingues Ribeiro, que arranca R$ 10 por semana da mãe para passar duas horas diárias em sites de relacionamento. Já o porteiro Sebastião Luiz Virginio, que só vai às lans aos domingos mas em compensação passa o dia inteiro lá dentro, procura conhecer pessoas novas tanto ao lado dos computadores quanto no espaço virtual. “Já arrumei namoradas na internet”, diz ele. “Mas nenhum desses relacionamentos durou mais de um mês”, lamenta. O estudante Thiago do Carmo Delfino, embora já tenha arrumado namoradas no MSN e no Orkut, tem mais interesse nos jogos eletrônicos. “Quando minha mãe deixa, chego a passar cinco horas aqui dentro”, diz ele, que retira de R$ 10 a R$ 20 por semana da pensão que recebe do pai.

“Se a gente vacilar, eles querem dormir aqui”, conta Fábio Fluzino, proprietário da Mini Delta, em Jardim Iguaçu. Mas não pense que ele se arrependeu de seguir o conselho dado por um primo há cerca de três anos, quando comprou os cinco PCs com que inaugurou o negócio que permitiu tanto a ele quanto a sua esposa trabalharem perto de casa. Também não o incomoda a concorrência quase predatória, que o obrigou a reduzir a tarifa da hora de R$ 2 para R$ 1. “Vai ter um dia que, para sobreviver à concorrência, vou ter que baixar meu preço para R$ 0,75”, queixa-se. Não é à toa que hoje já tem onze computadores na sua lan house, todas elas mantidas por um amigo que cobra um “preço camarada” para tirar os vírus e trocar as peças que dão mais velocidade às máquinas.

Dono da Lan do Júlio, Júlio César dos Santos trocou a profissão de enfermeiro para abrir seu negócio há pouco mais de um ano. Tem consciência de que as lan houses se tornaram um importante espaço de sociabilidade da cidade e por isso mantém a casa aberta de segunda a segunda, com direito a alguns dias de corujão, cujo funcionamento vai até as seis horas da manhã. O ex-enfermeiro acredita que, para manter as máquinas 60% do tempo ocupadas, precisa de computadores novos, oferecer um atendimento de qualidade e estar sempre atento às novidades.

Mas o chamado boom das lans está longe de acabar, pelo menos em Nova Iguaçu. “Muitas pessoas não têm computador em casa e quando têm, elas não têm como acessar a internet”, analisa Júlio César dos Santos. Ele não teme uma queda no mercado nem mesmo com a chegada da banda larga na Baixada Fluminense, seja na forma oficial ou na chamada net-cat. “A idéia de games em lan e internet está se difundindo em todas as tribos de jovens e profissionais”, avalia o dono da Lan do Júlio. Um dos principais responsáveis por essa divulgação seria a própria febre de lans. “Muitas pessoas que mal sabia que existia uma casa dessas, acabam conhecendo.”

Os bancos já perceberam o potencial desse negócio no país, como se pode perceber pelo fato de que apenas 21% da população brasileira ter feito pelo menos um acesso na internet. “Converse com o seu gerente”, aconselha Júlio César dos Santos. “Leve alguns casos de sucesso e as planilhas de gastos e perspectiva de retorno com cálculos sólidos.” Segundo o empresário, os bancos estão reconhecendo a viabilidade de empréstimo para este novo setor da economia. “Aproveite também o Sebrae, que é a maior instituição de apoio à micro e pequena empresas.” Com certeza, eles vão oferecer suporte para abertura da sua empresa.

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Pontinho de partida

Começam as caravanas para divulgar o Edital Escola Viva/Bairro Escola pelos bairros.

Por William Faria da Costa

Imagens: Natália Ferreira, Grabiela Gama e arquivo jovem repórter

Mais de 50 pessoas marcaram presença na Escola Municipal Venina Correa, no bairro Califórnia, para o lançamento do edital Escola Viva/Bairro Escola, carinhosamente chamado de "pontinhos de cultura".

O lançamento contou com a presença de pessoas preocupadas em contribuir para integrar cultura e educação. Entre os presentes, destacamos a particapação da diretora do colégio, de professores, alunos, pais de alunos e representantes de espaços culturais e projetos educacionais. Regiane Pavan, coordenadora do projeto Escola Aberta, e Edson Ribeiro, coordenador do Bairro Escola na região da Califórnia, ficaram atentos aos informes. Representando os espaços culturais, vieram o espaço Na Encolha, ABES e Escola de Dança de Nova Iguaçu, entre outros.

Écio Salles e Sandra Mônica, secretários adjuntos de Cultura e Turismo, falaram para todos que o objetivo do projeto é realizar um casamento entre a cultura local e a escola, valorizando a sabedoria popular. Eles fizeram uma analogia com essa metodologia, dizendo que, como nossas mãos, uma precisa da outra para aplaudir.

No edital, está escrito como os espaços culturais e pessoas da comunidade civil poderão mandar seus projetos. Todos passarão por uma seleção. Esses projetos devem propor oficinas práticas nas áreas:

  • Artes Visuais: que englobam fotografia, instalação artística e artes plásticas em geral;

  • Arte e Cultura Popular: danças típicas, contação de história e ritmos musicais mais identificados com o local;

  • Literatura: oficinas que apontam para a descoberta da poesia e sua produção pelos alunos;

  • Música: aprendizado de noções de técnicas de canto, instrumentos musicais e percurssão.
A seleção dos projetos será feita pela Comissão Permanente de Licitação (CPL). Os projetos devem ser inscritos junto à Comissão Permanente, anexa à prefeitura. O edital foi elaborado para dar um caráter mais democrático ao processo seletivo. Os projetos enviados terão que ser direcionados para escolas do município de Nova Iguaçu com alunos no segundo seguimento, que vai do 6° ao 9° ano escolar. Para a Secretaria de Cultura e Turismo, o essencial é que haja uma interação entre os canditdatos, para que, em conjunto, os projetos possam ser mais completos. Vale lembrar que os projetos selecionados poderão utilizar espaços fora das escolas contempladas com os mesmos.

Numa conversa com Écio Salles, ouvimos que a idéia para os "Pontihos de cultura" surgiu de uma conversa entre Maria Antônia, coordenadora geral do Bairro Escola, e o ministro da Cultura Gilberto Gil. Nessa conversa, eles discutiram a pouca conscistência em políticas culturais para educação, entendendo a necessidade de se realizar um "do-in Cultural", potencializando pontos culturais que estão sendo poucos utilizados.

A cidade de Nova Iguaçu é pioneira com o Escola Viva/Bairro Escola, tendo projetos parecidos somente no centro do Rio de Janeiro e em algumas cidades da Bahia. Écio Salles também nos disse que a Secretária de Cultura não procura um tipo de projeto específico, mas quer ter uma variedade de opções que fale tudo sobre os costumes populares.

- Já houve uma grande proucura por informação por parte dos atores culturais. Ainda não foram feitas inscrições, pois estamos esperando todos os interessados tomarem conhecimento de todo conteúdo do edital - completa Écio Salles.
A estratégia para mobilizar toda a cidade é realizar caravanas diárias nas escolas, convidando os atores culturais para que eles construam os projetos em grupo, formando redes de cultura e potencializando ainda mais esses projetos.

- O lançamento do projeto "Pontinhos de cultura" foi muito bom porque encontramos as pessoas que queríamos - revela Écio. Estavam aqui os pais de alunos, diretores, professores e atores culturais.

Para surpresa de todos que estavam no lançamento, houve uma manifestação cultural de duas alunas: Pâmela Rayane Santiago da Silva, 13 anos, e Taiza de Souza Amaro, de 14. As alunas cantaram o hino de Nova Iguaçu com uma batida diferente, feita somente pelas suas próprias mãos em seus corpos. Isso mostra que o projeto "Pontinhos da cultura" dará frutos para os adolescentes e jovens que estão entre o 6° e o 9° ano escolar.

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Santa liberdade

Dom Adriano Hipólito dedicou a vida à causa da liberdade e da igualdade social.

Por Bruno Marinho


Não poderíamos falar de ditadura militar sem fazer referência e reverência a Dom Adriano Mandarino Hipólito, Bispo da Diocese de Nova Iguaçu de1966 a 1994. Considerado um dos maiores bispos que o município já teve, ele foi uma voz forte na luta contra a opressão sofrida por nossos irmãos iguaçuanos.

Dom Adriano foi um dos expoentes da Ala Progressista da Igreja Católica e, além de ter organizado as Comunidades Eclesiais de Base da Baixada Fluminense, criou o Centro de Direitos Humanos da Baixada Fluminense. Também foi uma importante liderança da Ação Católica Operária. Todos esses espaços foram fundamentais no processo de resistência à ditadura militar e na organização da população.

Porém, sua luta contra a ditadura e sua linha política não agradaram a todos. Incomodados, os detentores do poder tentaram matá-lo em 1976, mais particularmente no dia 22 de setembro. Ele estava acompanhado de um sobrinho e da noiva deste quando foi interceptado por dois carros de um grupo paramilitar, de onde desceram homens armados. Envolveram sua cabeça com um capuz, algemaram suas mãos e arrancaram sua batina. Seus algozes forçaram-no a beber cachaça e ele foi espancado ao reagir. Foi deixado, com as mãos amarradas e o corpo pintado com tinta vermelha, em uma rua de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. O carro que dirigia foi explodido por uma bomba na porta da CNBB, no largo da Glória.

Mesmo antes de Dom Adriano, Nova Iguaçu já era considerada um símbolo da intervenção militar na Baixada e vinha sofrendo com a ditadura desde 1965. A maior intervenção fez-se presente com o Decreto-Lei nº 201, que permitia à Câmara, a partir de denúncias de corrupção e malversação de verbas públicas, cassar o mandato de seus prefeitos.

Esse decreto foi usado pela ditadura e, em seis anos, Nova Iguaçu teve oito chefes do Executivo: dois interventores, dois presidentes da câmara, dois prefeitos eleitos e dois vice-prefeitos. Mas a interferência dos militares só se tornou evidente em 1969 com a nomeação de Rui Queiroz como interventor federal. O interventor disse ao que veio na sua mensagem do 1º de maio de 1970.

Ao justificar por que o governo militar ainda não podia entregar ao operário iguaçuano o poder de decidir o seu destino, ele comparou a cidade a um jardim onde “o mato daninho terá que ser arrancado pela raiz, para que não sobreviva com a primeira chuva. A vegetação mais daninha e cheia de parasitas foi arrancada deste solo abençoado; entretanto, o jardim terá que ser observado, podado, desinfetado e cuidado para que na vegetação que ficou, possamos ter a certeza de que não existe mais perigo para a beleza de nossos dias e a tranqüilidade de nosso espírito. (...) E este jardineiro zeloso e devotado são as nossas Forças Aramadas”.

Essa imposição política não passaria sem resistência. Antes mesmo do atentado, Dom Adriano declarava que, salvo exceções, a imagem dos políticos da região era marcada pela mediocridade, incapacidade, puxa-saquismo e primarismo. A reação respondeu com várias ameaças de explosão de bombas, casos de espancamento, violações de correspondência e visitas com interrogatórios estranhos às principais lideranças tanto dos movimentos de bairros como da Igreja Católica.

Em vários desses casos, um autodenominado Comando Delta assumia a responsabilidade. Chegaram até explodir uma bomba na Catedral de Nova Iguaçu, destruindo o altar e espalhando hóstias por todos os lados. Os autores do atentado cuidaram para que ficasse claro o registro de sua autoria, através de panfletos e uma espécie de carta deixada em cima do órgão e endereçada a D. Hipólito: C.C.C (Comando de Caça aos Comunistas).Hoje na Catedral encontra-se em exposição o destroço do atentado.
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No fim da ditadura militar, Dom Adriano Hypólito permaneceu com suas convicsões e seus projetos até completar 76 anos de vida. Faleceu em 10/08/1996. Atualmente, Dom Adriano dá nome a ruas, praças, monumentos, seminários, escolas e até o viaduto da Via-Light. Essa foi a maneira que nossas autoridades encontraram para jamais esquecer essa figura histórica que, com sua determinação, ajudou a construir Nova Iguaçu.

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Onde as pessoas vão quando não têm nada a fazer

Mais do que um lugar de consumo, o Top Shopping é o ponto de encontro dos jovens da Baixada.

Por Mariana Fernandes e Nathália Duarte

Sexta – feira. O Top Shopping estava lotado, quando vimos um jovem sozinho parado como se procurasse por alguém. O jovem, cujo nome é Matheus Santana, é um estudante de 14 anos. Embora seja morador de Mesquita, está sempre em Nova Iguaçu. "Venho aqui ver meus amigos pelo menos duas vezes por semana", conta Matheus.

Mais à frente, deparamo-nos com Edmar da Silva, de 19 anos, e Gabriel Barcelos Cypriano, de 18 anos. Os dois são moradores de Três Corações, aqui em Nova Iguaçu mesmo. Eles vão ao shopping há mais de dois anos. "Sempre juntos", disseram.

Voltamos ao shopping na mesma noite, por volta das 21h15. Conversamos então com os irmãos Paulo Ricardo Keller, de 17 anos, e Renato Keller, de 16 anos. Eles estavam com o amigo Renan Cavati dos Santos, de 17 anos, que, como os dois irmãos, são estudantes e moradores de Vila de Cava. Eles também são freqüentadores assíduos do Top Shopping, muito embora jamais façam compras ali.

Quando conversávamos com eles, mais dois jovens se juntaram ao grupo. Eram o músico Daniel Araújo Costa, de 16 anos, morador de Comendador Soares, e o padeiro Francisco de Oliveira de 23 anos, morador de Miguel Couto. Os dois, que também freqüentam bastante o shopping, se conheceram ali mesmo. Mas eles não estão ali para fazer amigos. "A gente vem aqui para azarar mesmo", assumem.

Quando nós preparávamos para ir embora, encontramos Thuany Carvalhal, de 17 anos, e as gêmeas Andréia Moreira e Andressa Moreira, de 14 anos. As três amigas, que são moradoras de Morro Agudo e estudantes do 9º ano, contam que há mais de três anos podem ser vistas diariamente ali. "Fizemos várias amizades no shopping."

Cada jovem faz parte de um grupo, cada grupo tem uma história diferente e, apesar da diversidade, todos foram unânimes em dizer que freqüentavam o shopping “porque Nova Iguaçu não tem nada”.

Fica claro que os jovens de Nova Iguaçu não estão satisfeitos com o espaço reservado para diversão deles na própria cidade.

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